Cyborg relembra pesadelo com Usada e sonha disputar cinturão no Brasil

13/03/2017 13:40

Brasileira, no entanto, pode ter outra adversária, caso Germaine de Randamie tenha que passar por cirurgia: "Se ela for operar não quero esperar, quero lutar antes"


 
Cris Cyborg; treino; Los Angeles (Foto: Evelyn Rodrigues)Cris Cyborg: "Lutar no Brasil se tornou meu objetivo. Um dia vou lutar no Rio" (Foto: Evelyn Rodrigues)

Considerada uma das melhores lutadoras de MMA de todos os tempos, Cris Cyborg está ansiosa para voltar ao octógono do UFC, dessa vez pela recém-criada categoria peso-pena. 

A lutadora, que foi absolvida em fevereiro da acusação de doping feita pela USADA (agência que controla o programa antidoping do UFC) em dezembro, revelou ao Combate.com como foram os quase dois meses de espera até que o caso fosse solucionado. 

Pré-julgada por muitas pessoas, ela disse nunca ter tido dúvida de que conseguiria provar sua inocência, mas no meio tempo viu o UFC criar a divisão que tanto sonhou sem poder protagonizar a disputa de cinturão inaugural. Liberada para voltar a lutar, Cyborg só pensa em retomar o seu posto. A luta dos sonhos seria no Brasil e pelo título, mas tudo vai depender da lesão na mão sofrida pela campeã, Germaine De Randamie, na luta contra Holly Holm, conforme ela mesma explica na entrevista abaixo:

Como foram os dias desde que você recebeu a informação de que tinha testado positivo no exame da USADA até o anúncio de que tudo foi feito dentro dos conformes e você estava liberada para lutar novamente?

Foi um pesadelo. Todo mundo sabe que eu não aceitei lutar por causa da minha saúde, que eu estava precisando de um tempo. Não é nem um tempo de treinar, mas um tempo de fazer dieta, treinar muito e comer pouco, os exames diziam que eu estava anêmica. Precisava de um tempo mesmo. Eu estava com prescrição médica, da minha doutora, e quando caí no doping, perguntei: “meu irmão, caí com o quê?” Quando vi, era a prescrição da doutora, coisas de mulher. Na verdade, não era nem esse ímpeto, não era para corte de peso. É muito treino, sabe? Acho que tenho esse problema, essa coisa de mulher, que tem ovário, hormônio, tem tudo. Para mim e para o meu time, foi muito sinistro. Eu fiquei mal nesses dois meses. Mas na mesma hora que a USADA me ligou, eu dei tudo que eles queriam, passei o número da minha médica, tudo na hora, eu tinha tudo. Falei que podia ajudar em tudo que eles quisessem na investigação, minha médica também, eles entraram em contato direto com ela. Passei todos os meus exames, fiz todos os exames, tudo para concluir a investigação. Mas eu estava tranquila, sei que não fiz nada errado. Estava preocupada mesmo com a minha saúde, estava só esperando o resultado, e graças a Deus a verdade apareceu, eles entenderam tudo com a investigação que fizeram. Fiquei muito feliz. 

Você foi muito pré-julgada nesse período?

Muito. As pessoas, antes mesmo de saberem o que diz a investigação, começam a julgar, porque já aconteceu um doping na minha carreira. Não me envergonho disso, acho que todo mundo erra, a partir desse erro você aprende e amadurece como atleta. Quando isso aconteceu agora, as pessoas julgaram, não esperaram a investigação e já começam a falar um monte de coisas. Tive que segurar a onda de tudo, mas eu acreditava que tudo ia dar certo, porque não foi nada ruim, foi por causa da minha saúde, minha doutora ficou comigo até o final, meu time ficou comigo até o final, e graças a Deus deu certo.

Cris Cyborg (Foto: Getty Images)Cris Cyborg: "Eu fiquei feliz (quando o UFC fez a luta entre a Holly e a Germaine), não precisava ser eu lutando, todo mundo sabe que eu sou campeã dessa categoria, não ia mudar ali por fazer a luta pelo cinturão". (Foto: Getty Images)

Você pediu tanto para o UFC criar a categoria peso-pena e, quando finalmente isso aconteceu, você não pôde lutar. Como foi ver a Holly Holm e a Germaine De Randamie disputando o cinturão da categoria que foi criada para você?

O Dana White me ligou perguntando se eu queria lutar. Falei para ele que não poderia lutar agora, que precisava de um tempo, porque meu corte de peso foi muito brusco, ainda não estava preparada para perder peso novamente. Ele disse que teria a luta na categoria do mesmo jeito, e eu disse “tudo bem”. O problema é que eu não podia cortar peso de novo, tinha cortado em setembro e foi muito sinistro. Mas eu fiquei feliz, não precisava ser eu lutando, todo mundo sabe que eu sou campeã dessa categoria, não ia mudar ali por fazer a luta pelo cinturão. Acredito que foi um grande passo, fiquei feliz pelas meninas, fiquei feliz por ter aberto a categoria, porque querendo ou não, pode demorar, mas estarei ali lutando na categoria em breve, se Deus quiser lutando pelo cinturão. É só um tempo, é só ter paciência, é melhor eu lutar bem de saúde do que lutar mal, alguma coisa acontecer futuramente. Eu consegui entender, precisava desse tempo, minha doutora disse que eu não podia perder peso, então foquei na saúde. Fiquei feliz quando me convidaram para lutar, eles demonstraram respeito por tudo que eu fiz para tudo isso acontecer, achei bacana.

Você acha que vai concretizar em breve o sonho de disputar o cinturão peso-pena feminino do UFC?

Em breve. A vencedora iria lutar comigo, agora vamos ver o que vai acontecer com a Germaine. Ela vai checar a mão dela, pra ver se precisa ou não de cirurgia, então vamos ver o que vai acontecer. Eu não quero esperar, se ela for fazer a cirurgia não quero esperar, ou seja, quero uma luta antes.

Cris Cyborg, Megan Anderson (Foto: Reprodução Twitter)Cyborg já desafiou Megan Anderson nas redes sociais (Foto: Reprodução Twitter)

Você chegou a desafiar a Megan Anderson, campeã interina do peso-pena do Invicta, nas redes sociais...

Falei da Megan Anderson porque ela está com o cinturão interino do Invicta FC, eu sou a campeã do Invicta. Se eu não estivesse no UFC, já teria lutado com ela. Acho que ela é a número quatro da nossa categoria, vem só de nocaute nas vitórias dela. Acho que ela é a desafiante número um para lutar comigo. O certo é eu lutar com ela, pensando assim. A Holly lutou com a Germaine, mas ele veio de duas derrotas. Tudo bem, ela lutou e fez uma grande luta, mas não estava no ranking para disputar o cinturão da categoria. A Megan ganhou o cinturão interino do Invicta e falou que queria lutar comigo. Por que não? Se a Germaine não está pronta, acho que ela seria a primeira. Em um “número certo”, ela é campeã interina do Invicta, eu sou campeã do Invicta, e a gente ia se encontrar. Vamos ver agora o que vai acontecer.

Você também iniciou uma campanha pra lutar no UFC Rio, em junho. É esse o seu objetivo agora?

É em junho. Tive uma reunião com o UFC e disse que poderia lutar depois de março. Falei do Brasil, porque quem não quer lutar no Brasil, né? Eu já lutei duas vezes, e no Rio seria top... Eu lembro da luta da Ronda com a Bethe, que foi uma explosão. Então se tornou o meu objetivo, quero estar no Rio um dia. Quem sabe, né? A gente tem que jogar um verde, vai que colhe ali um maduro?

Você acha que a divisão peso-pena feminino vai ter profundidade suficiente no UFC? Acha que vai continuar sofrendo com falta de adversárias?

Acho que agora que apareceu a categoria peso-pena, pode até demorar, mas acredito que vão aparecer mais atletas, até porque a categoria também existe no Bellator. Acho que as meninas vão melhorando cada vez mais, vão lutando em mais eventos, então acho que mais meninas vão aparecer, sim. Em toda a minha carreira tive dificuldade de encontrar adversárias, sempre tive, mas acredito que esse é um trabalho do UFC. Eles que precisam arrumar uma adversária para mim. Com certeza eles têm interesse que eu lute, as pessoas gostam muito de assistir minhas lutas. Acho que vai ser uma correria para poder achar adversária.

Cris Cyborg, UFC 208, MMA (Foto: Getty Images)Cyborg sobre Ronda: " Não acho que seja uma coisa que ela realmente goste, o MMA. Se ela voltasse, seria bom, porque tem muitas meninas que se espelham nela". (Foto: Getty Images)

 

O que achou da derrota da Holly Holm para a Germaine De Randamie?

Todo mundo achou que a Holly ganhou, mas eu achei que a Germaine ganhou. Foi uma luta bem igual, dava para ser empate. Mas, se você olhar a Holly, ela saiu mais machucada que a Germaine, teve mais estrago, eu acho que a Germaine foi melhor.

Muita gente criticou os golpes da Germaine na Holly após o soar do gongo...

Quando a Germaine botou a mão no chão e a Holly acertou um chute na cabeça dela, ela levantou e tirou a mão do chão. Mas quando ela estava no chão, ela viu a Holly vindo com a intenção de chutar, por isso ela tirou a mão do chão. Só que eu acho que ela não gostou da intenção da Holly de chutar a cabeça quando estava com a mão no chão e, no calor da luta, quando ela se levantou, ela não pensou. Ela achou que a Holly tinha feito alguma “sujeira”. Mas também a Holly pode nem ter pensado nisso, ela soltou o chute no calor da luta ali. Mas eu acredito que ela nem escutou o gongo, nem escutou o barulho, ela estava ali com raiva. Ela quis mostrar ali: “se você quer jogar esse jogo, vamos jogar, então”. Não acredito que ela fez de maldade, dar o soco depois. Ela tem um monte de luta, ela não ia fazer isso. Eu acho. Ela não é amadora.

Se essa luta contra a Germaine acontecer em seguida, como você analisa a campeã peso-pena do UFC?

Cris Cyborg Germaine de Randamie UFC 208 (Foto: Reprodução Facebook)Cris Cyborg e Germaine De Randamie se encararam nos bastidores do UFC 208 (Foto: Reprodução Facebook)

É uma boa adversária para mim, ela é do peso-pena. Quando eu lutava pelo Strikeforce, ela já lutava na categoria. Acho que essa luta vai ser bem maneira, porque as duas são da categoria e vão disputar o cinturão. Vai ser uma grande luta, vou dar o meu máximo, quero buscar minha vitória. Todo mundo sabe qual é o meu estilo, e ele não muda. Lógico que não é só muay thai, é MMA, tem coisas no meu jogo que as pessoas não conhecem, e com certeza vou poder mostrar nessa luta.

Você e a Ronda Rousey têm uma das maiores rivalidades do MMA feminino. E depois dessa derrota dela para a Amanda Nunes, essa luta pode nunca acontecer. Acha que algum dia a Ronda vai voltar a lutar?

Acho que é difícil, muitos atletas sabem lidar quando estão ganhando, mas na hora de perder, segurar a onda, não é fácil para o lutador. Quando você está ganhando, é bom lutar, difícil é quando perde. Precisa saber perder. Não exatamente saber perder, mas ver o que você aprende com a derrota. É ruim perder, eu já perdi também, é ruim conviver com a derrota. Mas tem que lutar com isso, melhorar cada vez mais. Eu acho que a Ronda é assim, ela é boa quando está ganhando. Acho que ela sempre lutou com medo, mas ela ia bem quando estava ganhando. Se fosse alguém mais forte que ela, ela meio que "abria as pernas". Acho que ela nunca teve uma adversária como a Holly, como a Amanda. As meninas que lutaram com ela vinham do grappling, que é o jogo dela, que é do judô, do grappling. Quando veio alguém forte na trocação, derrubou, mostrou a realidade de lutadora. Não sei se ela vai voltar, acho que ela não precisa, ela tem tanto dinheiro que pode fazer o que quiser, o que ela gosta de fazer. Se ela realmente gostasse de lutar, ela teria voltado logo depois de perder para a Holly, não ia ficar um ano parada. Não acho que seja uma coisa que ela realmente goste, o MMA. Se ela voltasse, seria bom, porque tem muitas meninas que se espelham nela. Não acho que seja bom você perder e não voltar mais, do tipo “ah, me derrotou, agora vou desistir”.  Mas é a vida pessoal dela, às vezes tem que ver o que as pessoas em volta dela e ela querem.