Bebês morrem e pais acusam hospital do Rio de demora em partos.

09/10/2013 14:10
Leonardo registrou ocorrência na delegacia no dia 3 (Foto: Janaína Carvalho / G1)Leonardo registrou ocorrência na delegacia no dia 3.

Inconformados com a perda dos filhos, pais de recém-nascidos na Maternidade Municipal do Maria Amélia Buarque de Hollanda, no Centro do Rio, resolveram procurar a polícia. Pelo menos cinco bebês morreram na unidade hospitalar nos últimos meses. Há relatos de mulheres que ficaram em trabalho de parto durante 25 horas. Segundo os familiares, a insistência do hospital em realizar o parto normal compromete a vida dos bebês e das mães.

Nesta terça (9), as donas de casa Mayara da Silva Rosa, de 20 anos, e Carla Marins, de 29, enterraram seus primeiros filhos no Cemitério da Cacuia, na Ilha do Governador. "Se pudesse voltar no tempo, não teria ido para aquela maternidade. Eles mataram minha filha. Só no último momento eles fizeram a cesárea, mas minha filha já estava em sofrimento. Me explicaram que ela tinha engolido o próprio cocô", afirmou Mayara. De acordo com o hospital, a cesárea foi realizada após a constatação de líquido meconial espesso.

O Conselho Regional de Medicina (Cremerj) ressalta que o parto normal é a melhor alternativa, desde que seja preservada a saúde do bebê e da gestante. “O que a gente precisa ter é bom senso. Estão colocando a cesárea como grande vilã, quando, na verdade, ela salva vidas, salva mãe, salva feto. A gente não quer que se force um parto normal para manter o número dentro de uma maternidade”, explicou a obstetra e conselheira do Cremerj Vera Fonseca, destacando que a política do Governo municipal é a redução máxima do número de cesáreas na rede.

Em nota, a Prefeitura do Rio diz que o Hospital Maternidade Maria Amélia Buarque de Hollanda é a unidade com o indicador mais próximo do que é preconizado pela Organização Mundial da Saúde, que são 20% de cesáreas. Segundo a nota, o índice considerado ideal de cesarianas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é de 15%, restringindo-se aos casos em que haja de fato indicação clínica para a cirurgia (veja a nota abaixo).

Edema cerebral
Para Leonardo Freitas de Moraes, pai da recém-nascida Isabela, que morreu quatro dias após o nascimento, a demora em realizar a cesariana provocou a morte da criança. “Na última hora fizeram uma cesárea de emergência. Na hora eu não sabia, mas depois descobri que o líquido verde pastoso que saiu era o mecônio. Foi isso que a minha filha aspirou e aconteceu isso tudo que aconteceu com ela”, afirmou Leonardo. De acordo com a família, uma ultrassonografia realizada na recém-nascida na UTI constatou que ela teve edema cerebral.

Como o bebê nasceu sem batimento cardíaco, foi necessário fazer a ressuscitação e durante quatro dias o recém-nascido ficou internado na UTI da maternidade. No dia 26 de setembro Isabela não resistiu e morreu no hospital. De acordo com o atestado de óbito, as causas da morte foram: falência de múltiplos órgãos, síndrome hipóxico, isquemia grave, sepse neonatal e síndrome de aspiração meconial.

Sete meses após a morte da filha, Janif ainda não conseguiu desfazer a bolsa da maternidade (Foto: Janaína Carvalho / G1)Sete meses após a morte da filha, Janif ainda não conseguiu desfazer a bolsa da maternidade.


Drama parecido viveu Janif Cristine Costa do Nascimento, de 37 anos, em março deste ano. Ela ficou 26 horas em trabalho de parto até que o hospital optasse pela cesárea. “Ela não resistiu por causa da demora do parto e pelas fezes que o bebê ingeriu.  Ela (mãe) estava lá desde segunda-feira, não tinha necessidade de a criança passar por todo esse sofrimento”, afirmou o marido, Felipe dos Santos Martins, de 28 anos, ressaltando que Gabriela morreu cerca de 12 horas após o nascimento.

A morte de Gabriela e de Isabela foram registradas na 5ªDP (Mem de Sá) como homicídio culposo, quando não há intenção de matar. Nesta quarta-feira (9), Carla, Mayara e Ariane Katlei da Silva, de 18 anos, irão à delegacia registrar as mortes dos bebês. Ariane entrou em trabalho de parto no dia 28 de junho, foi levada para o Hospital Paulino Werneck, na Ilha do Governador, e transferida para a Maternidade Maria Amélia em seguida.

De acordo com ela, após quase 18 horas em trabalho de parto, a equipe médica resolveu realizar uma ultrassonografia, que constatou que o bebê estava morto. “Se eles não tivessem demorado tanto, minha filha estaria aqui comigo. Ela nasceu com o cordão umbilical enrolado no pescoço”, lamenta a dona de casa, destacando que mesmo após a constatação da morte do bebê, a equipe médica continuou a induzir o parto normal.

No início da tarde desta quarta, a Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia do Rio de Janeiro (SGORJ) informou que vai encaminhar para o Ministério Público e para o Cremerj uma carta formal pedindo a investigação dos casos de mortes de bebês na unidade hospitalar.

O presidente da SGORJ, Marcelo Burlá, salienta que um trabalho de parto considerado normal dura de 8 a 12 horas e é progressivo. Ele obedece um partograma, que mostra como ele deve evoluir conforme as horas vão passando. Neste partograma constam as medidas estatísticas como a dilatação cervical, frequência cardíaca fetal, duração do trabalho de parto e sinais vitais. Segundo Burlá, se algo sai dessa curva de normalidade é preciso interferência, seja ela com instrumento, medicamento ou cirurgia.

A delegada Karina Regufe, responsável pelo caso, enviou um ofício à diretoria do hospital e outro à Secretaria Municipal de Saúde solicitando o nome e a matrícula de todos os profissionais que passaram pelos plantões.

Isabela ficou na UTI durante quatro dias (Foto: Janaína Carvalho / G1)Isabela ficou na UTI durante quatro dias.

A universitária Carla Marins começou a passar mal na quinta-feira (2), mas chegou à maternidade e recebeu a informação de que deveria voltar para casa. O bebê nasceu às 13h45 de sexta-feira (3). "Subiram em cima de mim duas vezes para tentar empurrá-lo. Estou com a parte debaixo do peito toda dolorida até hoje. Meu filho foi assassinado brutalmente. Fui torturada durante o trabalho de parto naquela maternidade. Perdi o sentido várias vezes", lembra Carla.

De acordo com a assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Saúde, todos os óbitos materno-infantis são investigados por comissões, tanto na unidade onde o fato ocorreu quanto na secretaria (Confira a nota da Prefeitura a respeito de cada caso no final desta reportagem).

Durante as horas em que permaneceu internada, Janif afirma que houve um momento em chegou a implorar para que a cesárea fosse feita logo. “Quando uma enfermeira chegou no quarto e viu o líquido verde espalhado no lençol disse: ‘O bebê já fez fezes na sua barriga, a gente tem que te operar urgente’”. Segundo ela, após a notícia da perda da filha, a pediatra avisou que ela teria apenas 10 minutos caso quisesse ver a criança, pois esse é o tempo máximo que um corpo pode permanecer no local.

SUS enviou carta à Janif informando valor gasto em sua cesárea (Foto: Janaína Carvalho / G1)SUS enviou carta a Janif informando valor gasto
em sua cesárea.

A família diz que resolveu procurar a delegacia para evitar que outros casos semelhantes aconteçam. “Para eles, o dinheiro vale mais que a vida humana. A desculpa que dão é que a cesárea sai muito cara para o governo e tem que ser só em último caso”, afirmou Felipe, destacando que meses depois da morte da criança, sua mulher recebeu uma carta do SUS informando o valor gasto em sua cesariana.

Para a delegada responsável pelos casos, é preciso respeitar a vontade da mulher independente de parâmetros e metas estabelecidas pelo governo. “Essa política de parto normal é um desrespeito à mulher. Ela precisa ter o direito de escolha. Além do que, a responsabilidade da Saúde é causar o menor sofrimento possível ao bebê e a mãe”, afirmou Regufe.

 

Veja a nota da Prefeitura do Rio:

"Sobre os casos citados, a direção do Hospital Maternidade Maria Amélia Buarque de Hollanda esclarece que:

A paciente Michele Soares da Silva deu entrada na unidade no dia 20 de setembro, sendo internada para acompanhamento. Entrou em trabalho de parto no dia 22, com monitoração contínua da mãe e do bebê, que não apresentava sofrimento. A equipe médica decidiu realizar a cesárea ao constatar a presença de mecônio. O bebê ficou internado na UTI Neonatal, mas foi a óbito no dia 26.

Ariane Katlei da Silva foi admitida no HMMABH em 28 de junho, proveniente de outra unidade hospitalar, na qual não haviam sido detectados batimentos cardiofetais. Ultrassonografia confirmou que o feto já estava morto, com 39 semanas de gestação. A paciente foi internada para indução do parto e o feto natimorto apresentava uma infecção congênita.

Janif Cristine Costa do Nascimento foi internada na unidade em 11 de março, tendo sido iniciado acompanhamento com cardiotocografia para avaliação do bem-estar fetal, com padrão tranquilizador. Entrou em trabalho de parto no dia seguinte e em nenhum momento foram detectadas alterações na cardiotocografia. Os médicos decidiram realizar a cesárea ao constatar parada de progressão da dilatação. Às 08:21h do dia 13 ocorreu nascimento, que evoluiu com síndrome de aspiração meconial e subsequente óbito neonatal.

A direção do hospital esclarece que a paciente Mayara da Silva Rosa foi internada na noite da sexta-feira, dia 4, em trabalho de parto. Foi encaminhada para o Centro de Parto Normal e assistida pela equipe obstétrica, com avaliações periódicas da vitalidade fetal. A equipe médica decidiu realizar a cesárea ao constatar a presença de líquido meconial espesso. O bebê ficou internado na UTI Neonatal, mas foi a óbito no domingo, dia 6."

A paciente Carla Marins da Silva deu entrada na unidade na última sexta-feira, dia 4, após rompimento da bolsa, mas sem estar em trabalho de parto. Foi internada para acompanhamento com cardiotocografia para avaliação do bem-estar fetal, com padrão tranquilizador. Apresentou evolução espontânea do trabalho de parto e, às 13:45h do mesmo dia, ocorreu nascimento, de parto normal, que evoluiu com síndrome de aspiração meconial. O recém-nascido foi internado na UTI Neonatal, falecendo nesta segunda-feira, dia 7.

 

 

Jornal Folha do Rio.