‘Excesso não é a lógica da polícia’, afirma secretário de Segurança.

26/06/2013 15:46

Policiais militares posicionados na entrada do prédio da Secretaria de Segurança Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo

Policiais militares posicionados na entrada do prédio da Secretaria de SegurançaGABRIEL DE PAIVA 

 

RIO - O secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, defendeu, em entrevista à Rádio CBN, na manhã desta quarta-feira, a apuração das denúncias de possíveis excessos cometidos pelo Batalhão de Operações Especiais (Bope) durante operação na Favela Nova Holanda, no Complexo da Maré, Zona Norte do Rio, que terminou com nove mortos. Ao mesmo tempo, ele disse que a morte do sargento do Bope Ednelson Jeronimo dos Santos Silva, de 42 anos, também deve ser investigada.

— Essas coisas têm que ser apuradas. Especulação não faz bem a ninguém. Temos aqui mais de 1.500 policiais expulsos. Isso não é problema e, se tiver que expulsar mais, vamos expulsar. Assim como temos que apurar os excessos, temos que apurar quem matou o sargento. Infelizmente, o Rio de Janeiro vivia em alguns lugares a lógica da guerra, que não é mais a lógica da polícia — afirmou Beltrame.

 

Nesta manhã, cerca de 30 estudantes e moradores do Complexo da Maré fizeram um protesto em frente ao prédio da Secretaria estadual de Segurança, na Central do Brasil, contra a ação da polícia na operação da Maré. Moradora da Favela Parque União, que fica no complexo, a estudante e pesquisadora Shirley Rosendo, de 29 anos, disse que foi até a Central para protestar contra o modo com que a segurança pública tem sido conduzida no estado:

— A polícia entrou de forma truculenta na Maré e há boatos de que há mais mortos do que o que foi divulgado pela Polícia Militar.

Nascida e criada na comunidade e integrante da ONG Redes de Desenvolvimento da Maré, Shirley afirmou ainda que há famílias à procura de mortos na comunidade:

— Ontem (terça-feira) fazíamos uma vigília quando uma mulher se aproximou e disse que estava procurando o filho dela. Ele não está entre os mortos oficiais.

O grupo que participou do protesto na Central do Brasil colou cartazes em grades do prédio da Secretaria de Segurança. Segundo a estudante, ações truculentas da polícia são comuns na Maré:

— Os policiais não respeitam os moradores. Falta planejamento nas ações. Estava na comunidade nessa operação do Bope a sensação que tive foi de que os policiais estavam sem rumo, atirando para todos os lados.

De acordo com Shirley, os manifestantes querem que o governo e a prefeitura do Rio se responsabilizem pelos inocentes que morreram.

UPP da Maré está próxima, diz Beltrame

Ainda durante a entrevista à Radio CBN, o secretário José Mariano Beltrame disse que a instalação da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) no Complexo da Maré está próxima:

— O planejamento está pronto, a Maré está muito próxima. Mas temos que agir com critério, com a logística que sempre agimos. Vamos fazer como está planejado. Nos falta apenas executar isso, mas temos eventos no Rio que precisam ser atendidos. Vamos continuar na execução daquilo que foi planejado e prometido.

Segundo ele, o Rio vive dois momentos:

— Áreas pacificadas e, infelizmente, lugares onde a lógica da guerra ainda acontece. O que aconteceu na Maré acontecia na Mangueira, na Cidade de Deus, na Vila Cruzeiro, no Alemão, na Babilônia, no Chapéu Mangueira. Infelizmente a Maré ainda é um lugar desses. O que tivemos lá foi uma ação de traficantes contra a polícia. Não tem nada a ver com a manifestação.

De acordo com Beltrame, a polícia que cuidava da manifestação era o batalhão convencional e a tropa de Choque, inclusive, com equipamentos somente para desobstruir vias.

— Tanto é que quando houve os tiros de dentro da Nova Holanda, o grupamento especial teve que agir. O estado foi atacado. Infelizmente é o que o Rio, há muitos anos, recorrentemente assistia. Nossa política está muito clara, reduziu-se o auto de resistência drasticamente, reduziu-se homicídios drasticamente, retirada, inclusive, de equipamentos letais de alguns batalhões. Quando o estado for atacado, vamos optar por agir e não optar por nos omitir — acrescentou.

O secretário disse ainda que desconhece o uso de facas nas mortes ocorridas na Nova Holanda, conforme denunciaram moradores da região. Eles afirmaram que policiais do Bope teriam usado esse tipo de arma para torturar as vítimas:

— A questão técnica no terreno é específico de quem está na ponta. Ao que sei, preliminarmente, na perícia feita lá, não há esse tipo de notícia da Polícia Civil. Não fui informado disso. Perícias foram feitas. A DH e a Defensoria Pública foram lá, no sentido de fazer a perícia, instaurar os inquéritos e apurar. Ser transparente numa hora dessas é importante para todos nós.

Segundo Beltrame, a situação na Nova Holanda é tranquila na manhã desta quarta-feira.

— A polícia está nas imediações. Vamos continuar a observar para ver se há necessidade ou não de se tomar outra medida — disse o secretário.

Ato vai homenagear vítimas de operação

O geógrafo Jaílson de Souza e Silva, diretor do Observatório de Favelas, ONG que funciona na Favela Nova Holanda, disse que na próxima terça-feira, às 15h, moradores da comunidade vão fazer um ato ecumênico na Avenida Brasil, altura da passarela 9. O objetivo é lembrar as vítimas da operação policial na comunidade. Silva também pediu empenho da Polícia Civil na perícia para identificar as circunstâncias das mortes.

— Queremos saber como essas pessoas morreram. Elas foram executadas? Houve uso de facas? — questiona o diretor.

Silva também informou que os moradores da comunidade querem uma retratação do governador Sérgio Cabral e do secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, pela operação policial na Nova Holanda:

— Houve uma ação bélica de enfrentamento com uso de fuzis e caveirão. É lamentável a falta de equilíbrio de um estado que busca a pacificação. Qual foi o ganho dessa operação?

Ainda de acordo com o diretor do Observatório de Favelas, apesar da polícia já ter deixado a comunidade, o clima entre moradores é de revolta. Segundo ele, a energia no local só foi restabelecida na manhã desta quarta-feira.

Operação começou depois de arrastão

A operação na Favela Nova Holanda teve início na noite da última segunda-feira, depois da perseguição policial a um grupo de bandidos que tentava praticar assaltos em série numa das pistas sentido Zona Oeste da Avenida Brasil, na altura de Bonsucesso, após a manifestação que saiu da Praça das Nações e chegou a fechar uma faixa da Avenida Brasil.

Durante o confronto, o sargento do Bope Ednelson Jeronimo dos Santos Silva e Eraldo Santos da Silva, de 35 anos, que seria um morador e não teria envolvimento com o tráfico de drogas do local, morreram. Outras seis pessoas ficaram feridas na troca de tiros. Uma delas é um PM do 22ª BPM (Maré) e as outras cinco seriam moradores da comunidade. Na confusão, 16 pessoas foram detidas e levadas para a 21ª DP (Bonsucesso).

O protesto foi convocado pelo Facebook, que chegou a divulgar uma mensagem de cancelamento do ato. Com informações desencontradas, a Polícia Militar enviou 250 homens e até um blindado para garantir a segurança e coibir saques e atos de vandalismo.

Nesta terça-feira, a polícia deu continuidade à ação. Outros dois moradores, além de cinco suspeitos por envolvimento com o tráfico, morreram. Com isso, o total de mortes na ação chegou a nove. No entanto, o total de óbitos pode ser maior. O titular da Divisão de Homicídios (DH), Rivaldo Barbosa, afirmou nesta terça-feira que ainda fará novas perícias na comunidade para averiguar o número exato de mortos.

As armas apreendidas, de acordo com Barbosa, serão periciadas, e a investigação será exemplar. Ele informou que a chefe de Polícia Civil, delegada Martha Rocha, determinou prioridade nas investigações. As investigações das mortes ficarão a cargo da DH, e as sobre os feridos e a ação policial, com a 21ª DP (Bonsucesso).



JORNAL FOLHA DO RIO.