'Dilma foi atabalhoada e está pagando o preço por seu estilo autoritário e centralizador'.

05/07/2013 14:03

Para o cientista político Geraldo Tadeu Monteiro, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), a presidente Dilma Rousseff está diante de um momento de impasse: ou muda radical e rapidamente o seu estilo de governar, substituindo o autoritarismo pelo diálogo com prefeitos, governadores e parlamentares, ou corre o risco de ver sua administração caminhar para um estado de paralisia. Se permanecer como está, avalia Monteiro, há grande possibilidade de que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva entre, novamente, como fiador de Dilma para garantir a governabilidade até 2014.
 

A presidente Dilma soube ouvir a voz das ruas ao propor uma reforma política a ser realizada por meio de um plebiscito?

 

Foi uma saída atabalhoada. Ela pensou que seria um golpe de mestre tirar a crise das ruas e botá-la nas instituições. Ela colocou a bomba no colo do Congresso e disse: “Agora vocês têm que fazer o que eu estou determinando”. Mas depois ela percebeu que não era bem assim, que as resistências, no Congresso inclusive, eram muito fortes. O plebiscito não tem condições de ir adiante. Não há tempo hábil para se organizar um plebiscito sobre assuntos tão controversos e nem há condições políticas, pois isso suporia um consenso entre os políticos. Não é à toa que o Congresso discute há mais de dez anos diferentes propostas de reforma política.

 

Com a resistência ao plebiscito, inclusive entre partidos da base aliada, qual a situação da presidente hoje?

 

Ela está pagando o preço por seu estilo de governar, que é centralizador e autoritário. Dilma tomou essa decisão sobre a reforma política e o plebiscito repetindo esse padrão. Chamou os governadores apenas para comunicar a decisão que já havia tomado. Em momento algum, ouviu a sua base política ou discutiu o assunto com os governadores, muito menos com os presidentes da Casa e do Senado. Ela decidiu passar por cima deles e apelar para o povo diretamente. O pior é que ela ficou sozinha nessa história porque todo muito rejeitou as propostas. Nem a rua comprou as ideias dela. Você não viu cartazes com as frases “Queremos plebiscito” “Queremos reforma política”.

 

Apesar de sua avaliação negativa sobre a conduta da presidente, o senhor acha que ela pode recuperar a popularidade anterior ao início dos protestos?

 

A pesquisa foi uma pá de cal. A reeleição, que estava assegurada, não está mais. E, com isso, a base política dela ganha mais força. Ela sempre se valeu da aprovação de seu governo para impor ao Congresso as suas determinações, mas, agora, há pouco mais de um ano das eleições, está com 30% das intenções de voto e em queda nas alianças. Mais do que nunca, ela está precisando do apoio da sua base política, mas não sei se ela consegue. Com o governo caindo na aprovação popular, uma crise econômica que se avizinha, que vai fazer com que o governo tenha menos instrumentos para fazer política — distribuindo recursos, por exemplo — ela não vai ter mais bala na agulha para fazer política e recompor a sua base daqui pra frente.

 

Ela não, teria, então, como se recuperar?

 

A Dilma chegou num impasse. Ela tem de mudar totalmente de estilo e tentar ganhar a confiança do Congresso para ter estabilidade e seguir adiante por mais um ano de governo. Não sei se ela tem este know how. O Lula tinha. Era talhado na luta sindical. Ela, não. Sempre trabalhou em um gabinete, dando ordens. Pode ser que, desta crise, resulte um novo estilo, que ela tente governar de uma nova maneira. A sobrevivência política dela vai depender disso. Se não tiver capacidade de mudar radical e rapidamente o estilo de governo, eu temo que o governo dela caminhe para uma situação de paralisia política. A tendência de trajetória do governo Dilma é de queda. É muito pouco provável pelas condições atuais que a Dilma se restabeleça politicamente a ponto de ser candidata de consenso para 2014.

 

Diante disso, o que poderá ocorrer? Uma volta de Lula?

 

O presidente Lula travava relações com movimentos sociais e partidos políticos. Ele saía do gabinete para atender deputado que estava na antessala, enquanto Dilma não recebe ninguém, nem os próprios ministros. Agora, com o governo em queda, provavelmente a base vai abandoná-la para se voltar para quem encarna o futuro. Quem seria? Marina, Aécio, Lula? Acho que aí entra o fator Lula. Ele pode assumir a condição de espécie de tutor ou avalista da Dilma para que, os últimos 365 dias transcorram em paz até que ele volte a ser presidente. Como fiador da Dilma, ele não deixaria que o governo ficasse órfão. Ele faria a articulação. É o mais provável. Outra hipótese é o Lula não entrar no circuito. E aí a Dilma ficará numa situação de muita fragilidade.



Jornal Folha do Rio.