'A presidente interpretou as manifestações das ruas melhor do que o Congresso'.

05/07/2013 13:58

Professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) em São Paulo, o cientista politico Fernando Abrucio avalia que a presidente Dilma Rousseff interpretou muito bem as reivindicações dos manifestantes que ganharam as ruas desde o início de junho. Na opinião dele, o povo clamou por mudanças no sistema de representação política e mostrou, ao promover os protestos, que quer ser ouvido sobre os rumos do país. Por isso, Dilma teria seguido na direção certa ao propor a reforma política e a realização de um plebiscito. Para ele, se o Congresso não sinalizar mudanças no mesmo rumo, sairá derrotado, e a presidente vai se legitimar junto à população.
 

A presidente Dilma soube ouvir a voz das ruas ao propor uma reforma política a ser realizada por meio de um plebiscito?

Ela interpretou muito bem as manifestações. Acho até que melhor do que o Congresso. Creio que a melhor forma de o Congresso agir diante dessa batata quente que ela jogou lá é fazer algumas mudanças. Eles não precisam fazer plebiscito tão rápido, nem necessariamente com os cinco pontos sugeridos por Dilma. É uma questão de sinalização. Pode-se fazer algum tipo de consulta popular, e não propriamente as regras passariam a valer a partir de 2014.

Com a resistência ao plebiscito, inclusive entre partidos da base aliada, qual a situação da presidente hoje?

O Congresso fica brigando com isso, e aí pode acontecer de, depois, ela dizer: “O Congresso é soberano, mas eu fiz a metade, que é começar o debate para mudar as regras do sistema de representação. Eu quis consultar o povo, mas o Congresso não quis”. Isso é pesado. A cidade está dizendo que há uma crise de representação e que é preciso mudar as regras. O povo quer isso, afinal, não estava reclamando só da Dilma, mas de todos os partidos. Por isso, ela está se legitimando frente à opinião pública.

O Congresso, então, sairá perdendo, caso não vá além do debate sobre o plebiscito.

O Congresso tem que responder às manifestações e fazer do limão uma limonada. E há mil maneiras de fazer isso. Ficar brigando com o mundo não adianta. É preciso dar respostas de mudança. Vejo isso como algo semelhante ao que o (Geraldo) Alckmin (governador de São Paulo) e o (Fernando) Haddad (prefeito de São Paulo) fizeram quando disseram que não tinham como reduzir a tarifa de ônibus. Eles não haviam entendido o tamanho da demanda das ruas. Depois encontraram uma forma de reduzir a tarifa, assim como o (Sérgio) Cabral (governador do Rio). Da mesma forma, o Congresso vai ter de ouvir a voz das ruas e encontrar uma saída. O importante é fazer como o Senado, que já aprovou, em comissão, o fim do voto secreto. Se não fizer isso, não é a Dilma que sai derrotada, mas o próprio Congresso. Isso, ele e parte da base e da oposição, ainda não entenderam.

Dilma e Congresso não estão conseguindo se entender sobre as propostas. E há quem diga que o estilo de governar da presidente Dilma atrapalha...

Claro que vai ter uma disputa no Congresso e que alguns pontos vão ser controversos. Acho que o Congresso não está contente com a presidente há um bom tempo. As relações dela com o Congresso, desde o início, e, mais fortemente, no último ano, são muito ruins. Ela ouve pouco, conversa pouco.

A queda de popularidade de Dilma também estaria acirrando os ânimos dos parlamentares em relação à presidente?

Se ela tivesse a mesma popularidade de dois meses atrás (em março, o governo tinha 65% de aprovação; no final de junho, a taxa caiu para 30%), o Congresso estava com o olhar mais baixo, embora ainda muito bravo. As pessoas só não massacraram Dilma porque estão desesperadas, não sabem o que fazer, pois os políticos estão sendo rejeitados gigantescamente. O Alckmin caiu tanto quanto a Dilma, o Sérgio Cabral caiu, as pessoas estão com muito medo das urnas. E é por isso que eles estão tão bravos, porque a Dilma jogou a batata quente, quase como armadilha, para eles. Boa parte da classe política está se sentindo meio perdida. E a presidente jogou a conta para eles.



Jornal Folha do Rio.